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Em entrevista exclusiva para o Portal do Mulheres Mil, Cauby Pita, superintendente do Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo da Paraíba (Sescoop), fala sobre os trâmites para a criação de uma cooperativa e a evolução destas iniciativas no Brasil. Segundo ele, uma das fragilidades é a falta de conscientização acerca da importância e da capacidade de geração de renda dos empreendimentos solidários. Fato que pode ser constatado na quantidade de pessoas ligadas ao cooperativismo nos países da Europa. De acordo com Cauby, nesses países essas iniciativas ocupa mais de 50% da população.

Portal Mulheres Mil – O que define uma cooperativa?

Cauby Pita - Uma cooperativa é uma empresa, só que uma empresa diferenciada, onde a administração é coletiva, é participativa. Uma cooperativa é formada por um grupo de pessoas com interesses econômicos e sociais comuns. Hoje, pela lei em vigor, deve ter, no mínimo, 20 pessoas para formar uma cooperativa.

Portal Mulheres Mil – Quais os principais passos para a criação de uma cooperativa?

Cauby Pita - O primeiro deles é saber se as pessoas estão interessadas, pois não adianta chegar numa comunidade e dizer: “vamos implantar aqui uma cooperativa”, sem que os moradores sintam a necessidade. O segundo passo é ver se essa comunidade tem um ramo que queira explorar e se ele é viável economicamente. Para isso, dever ser analisado se o produto vai ter mercado, se o preço vai compensar, se terá condições de competir neste mundo globalizado. Ou seja, diagnosticar a viabilidade do negócio.

Se tiver viabilidade, o próximo passo é trabalhar a questão do estatuto da cooperativa. O sistema possui modelos diversos e devem ser estabelecidos os objetivos, a área de ação e o capital a ser subscrito (registrado) e integralizado. Todas essas questões têm de ser trabalhadas com o grupo. Trabalha-se primeiro o estatuto e, depois de discutido com todos, é feita uma assembléia de constituição da cooperativa. Neste momento, é escolhido o conselho de administração ou de diretoria, o conselho fiscal e prepara-se uma ata de constituição.

A partir disso, começa a tramitação da documentação para fazer o registro na Junta Comercial. É necessário tirar o CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica), o alvará de funcionamento e, dependendo do ramo, o registro na Secretaria da Receita para tirar talões e nota fiscal, no corpo de bombeiros e assim por diante. Por último, deve ser registrada na organização das cooperativas para ela funcionar legalizada. No Sistema OBC/Sescoop, damos todas essas orientações. Não cobramos nada, apenas as despesas da junta comercial, receita e Corpo de Bombeiros, etc.


Portal Mulheres Mil – Algumas cooperativas enfrentam problemas de gestão. Como deve ser a administração e que orientações ou assessorias os cooperados devem buscar?

Cauby Pita - É importante fazer um curso de capacitação para os cooperados. Outra questão é que a cooperativa deve ter uma gestão profissionalizada. Se no corpo de cooperados não tiver pessoas com o perfil para fazer uma administração com visão empresarial, então recomenda-se contratar alguém do mercado. O que não pode é ser gerida no amadorismo, na improvisação.

O segundo ponto é a preocupação com a educação, formação e informação dos cooperados. A terceira é a intercooperação, ou seja, as cooperativas unindo-se têm mais poder de barganha no momento de adquirir produtos e de competir nesse mercado cada vez mais globalizado. E por último é a responsabilidade, o interesse pela comunidade onde está inserida, porque hoje até as empresas privadas se preocupam com a responsabilidade social.

Portal Mulheres Mil – Como está este movimento no Brasil?

Cauby Pita - Tem evoluído, mas não da mesma uma maneira como acontece nos países desenvolvidos. Nós temos exemplos da Europa, Estados Unidos, Canadá, onde mais de 50% da população é ligada ao cooperativismo. Aqui no Brasil, em relação a esses países, somos muito pequenos. Em algumas regiões, o cooperativismo é muito forte, como no Sul e Sudeste. Eu sempre digo que era pra ser o inverso, o Norte e Nordeste deveriam estar mais unidos, mais abertos para o cooperativismo e assim alavancar o desenvolvimento.

Portal Mulheres Mil – E na Paraíba?

Cauby Pita - Na Paraíba, ainda estamos iniciando. Apesar de já ter iniciativas há muitos anos, ainda é fraco. Isso não quer dizer que não tenhamos boas e grandes cooperativas. Temos no ramo da saúde, a exemplo da Unimed, de crédito, a Unicred, e o da agropecuário. Porém, precisamos avançar muito. Com chegada do Sescoop no Estado, que começou a operar em 2000, temos avançado na formação profissional, na capacitação, na conscientização cooperativista.

Um dos pontos frágeis é essa falta de conscientização, e a evolução do cooperativismo no Sul e Sudeste prova isso. Ela deve-se à colonização, pois recebeu muitos imigrantes da Europa que, quando chegaram no Brasil, já trouxeram a cultura da cooperação. O que falta aqui no Estado, e o Sescoop está trabalhando firmemente nisso, é criar essa cultura da cooperação.

Portal Mulheres Mil – Quais as potencialidades deste tipo de iniciativa de produção solidária para um público como as participantes do Mulheres Mil?

Cauby Pita - O cooperativismo tem uma grande vantagem porque significa economia social, ou seja, a distribuição dos resultados. Enquanto na empresa privada todos os lucros vão para um dono, na cooperativa essas sobras, pois não temos lucros, temos sobras, são rateadas equitativamente entre os cooperados, porque todos são donos do empreendimento. É uma iniciativa que é viável e salutar em qualquer ramo de atividade e porte, seja grande, médio ou pequeno.

Cauby Pita é engenheiro agrônomo, com mestrado em Economia Rural, pela Universidade Federal de Viçosa (Minas Gerais). Ele já trabalhou na Comissão Estadual de Planejamento Agrícola, nas Secretarias de Agricultura e da Indústria e Comércio, na área de Ciência e Tecnologia. Desde 2001, assumiu a Superintendência do Sescoop do Estado da Paraíba.

Felipe Donner - Assessoria de imprensa Cefet - Paraíba

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