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Nair Soares Ferreira, artesã de 54 anos, é a primeira aluna do Mulheres Mil a fazer parte do colegiado de um campus. Dona Nair foi eleita depois de intenso trabalho nas salas de aula do Instituto Federal de Santa Catarina em São Miguel do Oeste, cidade de 35 mil habitantes a 730 km da capital Florianópolis.

No seu novo cargo como membro do colegiado, ela deverá assessorar a direção geral na melhoria da educação da unidade e na correta execução de suas políticas.

O caminho de Dona Nair foi longo. De sua chegada aos 17 anos e sozinha em São Miguel do Oeste até sua eleição foram anos de "lutas bem difíceis para alcançar meu objetivo", em um período em que viveu a realidade do baixo grau de instrução comum a tantos outros brasileiros.

Do momento em que "sabia ler, escrever, na leitura eu ia bem, mas na escrita era menos" e sua entrada como membro do colegiado do campus, Nair passou por programas de educação continuada e para jovens e adultos até encontrar no programa Mulheres Mil um lugar para ficar: "até quando eu puder estudar, eu vou estudar aqui".

O Mulheres Mil entrevistou Dona Nair pela internet na quinta-feira, 22 de março, entrevista que você pode ler agora.

Mulheres Mil - Nós vamos dividir a conversa em duas partes apenas, primeiro gostaríamos que a Sra. contasse um pouco da sua história até entrar no Mulheres Mil.

Dona Nair - Bem, eu sou casada. Meu esposo tem 69 anos, eu vim para São Miguel do Oeste com 17 anos, completei 18 anos aqui, vim sozinha, nem conhecia São Miguel do Oeste. Sou corajosa mesmo né? Vim sozinha, não conhecia ninguém, passei umas lutas bem difíceis para alcançar meu objetivo. Conheci uma pessoa que era do Rio Grande do Sul, mas não deu certo. Conheci esse meu esposo que é viúvo, tinha um casal de filhos, um filho de sete meses… aí fui morar com ele em Cabeceira do Pinhal, São Bento. Morei um ano com ele lá… ele tinha uma armazém, voltamos para São Miguel do Oeste, compramos ali um lugar onde moramos um bom tempo. E aí viemos morar na cidade, no Bairro Jardim Peperi, e eu sempre quis estudar, porque eu estudei muito pouquinho. Eu não sabia quase nada na época, sabia ler, escrever, na leitura eu ia bem, mas na escrita era menos. Comecei a frequentar a AMAPEC [Associação de Amparo às Pessoas Carentes de São Miguel do Oeste], onde se faz bastante trabalho de artesanato. Estudei uns meses no CEJA [Centro de Educação de Jovens e Adultos], mas não continuei porque lá é muito rápido e eu via que para mim, como eu queria aprender mais, no estudo as coisas não devem ser tão corridas. Eu gosto de me aprofundar mais no estudo.

Mulheres Mil - E o que a senhora faz hoje?

Dona Nair - Eu sou do lar, faço trabalho de artesanato, faço curso de teclado - porque sou evangélica, sou da igreja Deus é Amor - e quando surgiu essa oportunidade, quando eu estava fazendo curso no Pronatec e as meninas daqui foram lá procurar mulheres que gostariam de estudar no grupo de Mulheres Mil, eu gostei da proposta, achei lindo, adorei, e não pensei duas vezes, aceitei logo na primeira. Taí a minha oportunidade. E sempre, quando estavam construído esse colégio aqui, como diz o ditado, já vinha namorando ele. Eu pensava assim "ah, eu nunca vou chegar nesse colégio, esse é para os jovens, para as pessoas que vão cursar uma faculdade, ter um estudo mais avançado". Jamais esperei que um dia ia estar aqui estudando. Para mim foi uma surpresa muito grande. Estou aqui, gosto, estou adorando meu estudo. Inclusive, estava falando hoje mesmo, que nas contas eu não sabia quase nada e como aqui as contas são ensinadas de uma maneira diferente, mais fácil da gente entender, da gente fazer, eu já estou fazendo bem melhor. Estou adorando, em tudo. Você vê que é bem diferente porque os alunos dos outros colégios criticam as pessoas de mais idade e aqui é bem diferente, a educação é diferente, as pessoas tratam a gente diferente. Então eu falo para as pessoas que aqui todos tratam a gente com carinho, com amor, não grosseiramente como em certos lugares. Então eu adorei mesmo, espero que eu consiga ir bem mais para frente, que eu tenha saúde e possa continuar os estudos… até quando eu puder estudar eu vou estudar aqui.

Mulheres Mil - E a senhora faz hoje cursos voltados para a sua área do artesenato?

Dona Nair - Isso. Eu não sou aposentada ainda e meu esposo tem um salário mínimo, então eu tenho que correr atrás. Fazer o quê? Eu não posso só depender dele. É difícil. Ele não trabalha, só ganha a aposentadoria devido a idade dele, e eu nunca trabalhei com carteira assinada, então sempre um pouquinho que entra me ajuda, porque eu gasto com medicamento, tenho problema de coluna, problemas de tireóide, problemas também na família. Meu pai e minha mãe faleceram… meu pai faz sete anos, minha mãe faz cinco… eu sou a filha mais velha, então eu sempre tenho que também ajudar. Meu esposo ajuda, mas meu esposo casou comigo, não casou com a família! Né verdade? Eu tenho 54 anos e espero que Deus me dê mais anos de saúde para poder cuidar deles também. Tenho uma enteada, que mora vizinho ao meu terreno, tenho três netos, um estuda, fazendo o ensino médio, outro estuda de tarde no Senai, a outra tem sete e tem um enteado meu que nós não sabemos notícia, não sabemos se está vivo ou está morto. Minha neta mais velha, filha dele, mora em São Miguel, tenho um bisneto e uma bisneta. Ganhei tudo pronto. Minha enteada tinha 2 anos e meio - essa que é mãe da minha neta -, quando conheci meu esposo meu enteado tinha 14 anos e minha enteada tinha dois anos e meio. Faz já um bom tempão que eu tô com eles, faz já quase 40 anos.

Mulheres Mil - E quais são suas expectativas para o Mulheres Mil? O que a senhora está achando?

Dona Nair - Ah, professora [Dona Nair foi acompanhada por professores do programa durante e entrevista], eu vi que vou ter que botar minhas ideias para funcionar. Minha expectativa é ajudar elas [Dona Nair se refere às outras alunas do Mulheres Mil], dar força para elas vencerem, dar força para seguirem essa jornada, não pararem na metade do caminho, continuar em frente porque elas não podem desanimar… porque aqui na aula não é só o estudo, não é só a gente estudar, é uma terapia para nós. Porque às vezes, estou em casa com um problema e venho para cá estudar e é uma terapia, é bom para a gente. Então tenho que ajudá-las a prosseguir, a não parar no meio do caminho, não só aquelas que estão aqui como as que estão por vir.

Mulheres Mil - A senhora é representante do colegiado do Campus…

Dona Nair - Meu trabalho agora dobrou. Viu como eu sou sonhadora? Para começar, vim desde lá do torto dos índios, da divisa do município de Chapecó, minha mãe era índia, meu pai brasileiro, já tenho uma mistura aí de uma pessoa corajosa. Tem muitas pessoas… eu vejo por mim mesmo… tem pessoas que vejo animadas a vir, mas tem outras que quando a gente fala dizem "não, o que eu vou fazer lá?, eu já fiz o primeiro ou o segundo grau, pra mim não tem mais nada o que fazer". Mas não é assim. Vem aqui para aprender coisas diferentes, como esses cursos que faço. Fui lá e vi vários cursos, fui aprendendo, e sempre tem um curso que vai ter mais saída. Como esse trabalho regional que tem em Xapecó que eu ouvi falar, não conheço, mas dizem que tem uma loja com um trabalho de artesato muito caríssimo, eles cobram muito caro os produtos que vendem. Basta ser que o time do Brasil, o jogador do Brasil, a roupa deles na última copa foi toda de artesanato. E tem vários trabalhos de artesanato… eu aprendi a fazer aqueles puffs com litro de plástico… tudo, é uma coisa simples, e tem pessoas que você fala para fazer e não querem fazer nada, se acomodam, dalí vem depressão, um monte de problemas… tem que sair, não tá fazendo nada de mal, tá fazendo bem para si mesma, se ajudando. Melhor do que ficar em casa só com problemas… eu tenho bastante problemas na família e de saúde, mas se eu fico em casa começo a pensar, pensar, pensar e vai criar mais problema. Estou bem, estou alegre, estou feliz com a meninada. Estudando estou feliz, vou para casa contente e depois posso ajudar mais pessoas…

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