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Entrevistas - Culinária Solidária

Sandra

A responsabilidade chegou cedo para Sandra da Conceição Xavier da Silva, 39 anos, aluna do projeto pernambucano Culinária Solidária. Ainda criança, ela teve que encarar o mundo do trabalho. Começou como babá e aos 13 anos trocou as fraldas dos bebês que cuidava por uma foice. Era com essa ferramenta que ela cortava cana-de-açúcar nas plantações de Carpina, interior de Pernambuco.

“Acordava às 4h da madrugada e trabalhava até as 5h da tarde” relembra Sandra de sua dura jornada que marcou para sempre sua vida. O primeiro dia de aula só foi ocorrer em sua juventude, quanto tinha 17 anos de idade. “Nunca tive oportunidade de estudar”, desabafa.

Em 2009, Sandra realizou um grande sonho. A dona de casa que tem dois filhos conseguiu concluir o ensino médio através do Travessia, um programa do Governo de Pernambuco e da Fundação Roberto Marinho que combate a defasagem escolar.

Sandra agora sonha em concluir o curso Culinária Solidária para ajudar sua família. “Meu marido é autônomo. Às vezes tem trabalho, às vezes, não. Espero conseguir um emprego para ajudá-lo. Penso na nossa velhice”, explica. A renda familiar atualmente é reforçada pelo Bolsa Família. Seu marido está solicitando aposentadoria. Por motivo de saúde, ele já não está agüentando trabalhar.

Gil Aciolly – Assessoria de imprensa do IFPE

Responsabilidade é uma palavra que logo cedo foi incorporada ao vocabulário de Risomar da Silva Vicente, 48 anos, aluna do Culinária Solidária, em Recife. Criada sem pai, ela teve que ajudar a mãe a cuidar de cinco irmãos. “Nunca tive oportunidade de estudar. Na infância, trabalhava em casa de família. Meu pai nos abandonou quando ainda éramos pequenos. Só depois de adulta é que consegui fazer um curso”, diz.

Apesar da qualificação como auxiliar em enfermagem, ela não obteve sucesso no mercado de trabalho. “Não há empregos. Às vezes, aparecem algumas oportunidades para cuidar de idoso”, conta.

Entre uma frase e outra, ela demonstra que sente revolta pelo fato de o pai ter abandonado a família. “Até hoje ele é vivo. Sei que mora em São Paulo, mas não tenho contato. Ele nunca nos ajudou. Se eu não tivesse que trabalhar aos 12 anos, não teria abandonado a escola”, desabafa.

Aos 15 anos, Risomar decidiu sair de casa. Casou e teve três filhos. O dinheiro que conseguia servia para sustentá-los e ajudar a mãe. O relacionamento não deu certo. “Ele bebia muito e chegava em casa quebrando tudo. Há 14 anos, quando as crianças cresceram, me separei. Não tinha coragem de deixá-lo antes, pois não queria que meus filhos passassem pelo o que eu passei”, relata.

Com o fim do casamento, voltou a morar com a mãe. Dois de seus filhos casaram, o outro, que tem um tipo de deficiência mental, requer cuidados especiais e recebe um benefício da seguridade social. É com a ajuda desse recurso que a família consegue se sustentar.

Desempregada, a expectativa é que o Mulheres Mil abra as portas do mercado de trabalho. “Quero trabalhar na cooperativa que vamos montar no final do curso. Caso não seja possível, vou ser cozinheira em algum restaurante. Já tenho experiência na área, pois fui ajudante de cozinha em um self-service. Meu maior sonho é conseguir terminar o ensino médio e comprar uma casa própria, pois a que eu tinha foi destruída pelo meu marido”, lamenta.

Gil Aciolly – Assessoria de imprensa do IFPE

Edilene planeja montar o próprio negócio. (Gil Aciolly)
“Meu atual sonho é concluir o curso Culinária Solidária e abrir um negócio próprio através de um financiamento do Banco do Nordeste. Quero terminar de criar meus filhos, ver meus netos”, conta Edilene Lima Silva, 38 anos, que teve uma trajetória marcada pela violência doméstica, fome e desemprego.

Com apenas 13 anos, Edilene foi obrigada a casar e sair da casa dos pais. O motivo do casamento precoce foi tão doloroso que ela prefere não falar sobre o assunto. “Casei com meu primeiro namorado, um policial que bebia muito. Não gosto nem de lembrar o que me levou a tomar tal atitude”, desabafa.

A jovem sofria com a violência do marido. A coragem para se separar só veio quando Edilene encarou a morte. “A gota d’água foi o dia em que ele colocou uma arma na minha cabeça e disparou várias vezes. A sorte é que eu havia retirado, escondida, as balas do revolver”, revela.

Abalada com a noite de terror, a jovem esperou a madrugada e voltou para a casa dos pais com a filha de dois anos e um filho de seis meses. Ela sabia que precisava de muita garra para tomar conta da família sozinha. Por isso, resolveu viajar para São Paulo em busca de melhores oportunidades.

“Fui para São Paulo sozinha. Após dois anos, voltei ao Recife para buscar minha filha”, diz. A vida na capital paulista não era fácil. Edilene passava fome e procurava as feiras livres para catar alimentos para comer. As dificuldades obrigaram a mulher a retornar ao Recife.

Com a filha, que é casada e está concluindo o curso superior de Administração, Edilene aprendeu uma grande lição. “Ela sempre me diz que a única maneira de vencer na vida é através da educação”, conta. O exemplo foi seguido pela mãe, que não perdeu tempo em se inscrever no Mulheres Mil assim que tomou conhecimento do projeto. “Foi a primeira oportunidade que surgiu para voltar a uma sala de aula”, diz.

Gil Aciolly – Assessoria de imprensa do IFPE
Nadja Maria da SilvaNa infância, ela foi abandonada. Na fase adulta, chegou a ser espancada pelo marido até no Dia Internacional da Mulher. A história de Nadja Maria da Silva, aluna do projeto Culinária Solidária, foi marcada por uma incessante busca pelo amor e felicidade. Hoje, ela diz que já conseguiu encontrar o que procurava. Aos 38 anos, voltou a estudar e espera ter uma vida ainda melhor através do projeto.

Nádia diz que já nasceu em meio a problemas. Aos 15 dias de vida, foi abandonada. Antes de completar um mês, passou por cinco mães até ganhar um lar. O grande trauma de sua vida ocorreu quando a garota completou sete anos. Ela presenciou uma discussão entre os pais e a avó e descobriu que havia sido adotada. “A descoberta ocorreu da pior forma possível. Minha avó dizia que minha mãe estava arrependida por ter me pegado para criar. Gritou que seria melhor que tivessem me jogado em um rio”, lembra.

A nova realidade aterrorizou a menina, que iniciou a busca pela mãe verdadeira. “Meu sonho é encontrá-la, mas até hoje não consegui”, revela. Na nova casa, ela começou a perceber que faltava apoio dos irmãos e dos pais adotivos. “Eu não ganhava nada. Aos 12 anos, comecei a trabalhar como doméstica para poder comprar minhas coisas”, desabafa.

Com 18 anos, Nadja se apaixonou e resolver dar início a um relacionamento amoroso. Ela conta que era muito carente e na tentativa de suprir essa necessidade, logo casou e teve uma filha. Não demorou muito para que o sonho se tornasse um pesadelo. O marido começou a espancá-la constantemente. Foram cinco anos de agressões.

Nadja só conseguiu reuniu forçar para deixar o marido depois de sofrer o que considerou o maior de todos os espancamentos. “Era 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Ele me jogou da cama.O piso grosso ficou marcado na minha face. Fui parar no hospital. Fiquei irreconhecível, com o rosto em carne viva”, conta.

Tanto sofrimento deixou cicatrizes físicas e emocionais na mulher. “Sempre busquei por carinho. Procurei esse sentimento na família, mas não encontrei. Procurei em um homem e mais uma vez não encontrei”, diz.

Nadja só voltou a sorrir há cinco anos, quando encontrou o atual companheiro. Ela revela que ele é um bom amante, amigo e pai. É quem sustenta a casa. Para ajudá-lo com as despesas, ela resolveu participar do projeto Culinária Solidária. Seu objetivo é se profissionalizar e conseguir um emprego.  “Hoje, sou uma mulher feliz. Por tudo que passei, não espero muita coisa dessa vida, somente continuar a ser feliz”.

Gil Aciolly – Assessoria de imprensa do IFPE
Simone sonha com trabalho e uma vida melhor (Gil Aciolly)
A educação foi o caminho encontrado por Simone Santos da Silva, 25 anos, aluna do projeto Culinária Solidária, Mulheres Mil de Pernambuco, para tentar mudar a realidade econômica de sua vida. A jovem quer garantir o futuro do filho, que tem dois anos de idade.

A gravidez na juventude pegou Simone de surpresa, aos 23 anos de idade. A jovem, juntamente com o filho, mora na casa dos pais, que são responsáveis pelo sustento de toda a família. “O pai do meu filho não oferece qualquer tipo de ajuda. Preciso conseguir um emprego para puder ajudar em casa”, diz.

A busca por um emprego é um sonho antigo. Simone concluiu o Ensino Médio no ano 2000, mas descobriu que o diploma do antigo Segundo Grau por si só não abriria as portas do mercado de trabalho. “Já entreguei currículo em muitos lugares. Procurei muitos empregos, mas todos exigem experiência”, relata. Ela ocasionalmente faz faxina para conseguir algum dinheiro.

Com o Mulheres Mil, a esperança de um emprego foi reacesa. “Sei que um dia minha carteira de trabalho vai ser assinada. Vou começar como auxiliar de cozinha e depois cozinheira”, sonha a jovem.

Gil Aciolly – IF PE
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