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Entrevistas - Inclusão com Educação

Jane Amorim

Em Boa Vista, as beneficiadas pelo Mulheres Mil enfrentam diversas dificuldades, entre elas a impossibilidade de sair do presídio. Para garantir a oferta das diversas necessidades educacionais, o Instituto Federal celebrou parcerias com várias instituições. Jane Amorim, gestora do projeto no Estado, fala sobre a importância do trabalho que está sendo desenvolvido pelos parceiros.

MM - De que forma as instituições foram sensibilizadas?
Jane Amorim
– Inicialmente, elaboramos um convite para os parceiros em potencial e apresentamos o programa Mulheres Mil e em seguida o Inclusão com Educação, nome do projeto em Roraima. Nos encontros, procurávamos mostrar as organizações que todos poderiam contribuir, através da educação, com a inclusão dessas mulheres.

MM - Como foram formalizadas as parcerias?
Jane Amorim
- Através de termo de adesão, firmado entre o reitor do IF e o representante de cada instituição. Com os palestrantes, oficinistas, acadêmicos e servidores do IFRR envolvidos, um convite de participação em um projeto social.

MM - Que parcerias foram construídas?
Jane Amorim
- Foram muitas. Com o Governo do Estado, através das secretarias de Educação e de Justiça e Cidadania. Contamos ainda com o Fórum da Eja,  Sebrae, Sesi e Senac. No momento, estamos em negociação com a Coordenação Nacional de Cooperativas, com o Senar e a Universidade Federal do Roraima.

MM - Que atividades são desenvolvidas por cada um dos parceiros?
Jane Amorim
- A Secretaria de Educação oferta educação de jovens e adultos fundamental, já a da Justiça entra com o apoio pedagógico, monitoramento e triagem das reeducandas. O Senac oferta do curso de culinária regional e o Sebrae e o Sesi, apoio pedagógico.

MM – Como é o envolvimento das pessoas que estão atuando no projeto?
Jane Amorim
- Os palestrantes, instrutores, oficinistas, acadêmicos, assistente social, psicólogos, entre outros, sentem orgulho de estar participando do projeto e tendo a oportunidade de diminuir a distância social e, com este ato, incluir os menos favorecidos. Além disso, verificar que é possível fazermos muito por nossos semelhantes desfavorecidos socialmente e excluídos.

Stela Rosa - Jornalista

Sandra Regina
Mulheres ociosas e sem perspectivas de futuro. Foi esse o quadro que Sandra Regina Santos, diretora da penitenciária feminina de Boa Vista, encontrou as mulheres quando assumiu a administração. Após um ano de implantação do Mulheres Mil, Sandra aponta a elevação da autoestima como um dos resultados.

Portal Mulheres Mil - Qual o perfil das mulheres que cumprem pena na cadeia pública feminina de Boa Vista?
Sandra Regina Santos - A maioria se evolveu com o trafico de drogas, tem o grau de escolaridade baixa e faixa etária entre 20 a 50 anos.

Portal Mulheres Mil - Como foi construída a parceria com o IFRR para a implantação do projeto?
Sandra Regina Santos - Quando fui convidada para administrar este presídio, fiquei balançada, pois não tinha experiência em trabalhar com mulheres, até então tinha trabalhado com homens, mas aceitei o desafio. Ao chegar nesta unidade, encontrei mulheres sem perspectivas, que passavam o dia dormindo, jogando cartas ou com picuinhas.

Foi quando fomos ao CEFET pedir que a instituição proporcionasse algum de atividade física e recreativa para as reeducandas. Lá a professora Jane Amorim (gestora do projeto no Estado) nos informou que já havia um projeto prontinho para ser desenvolvido com as reeducandas e que se chamaria Mulheres Mil. Em pouco tempo, o projeto começou e foi uma maneira de ocupar o tempo e ensinar uma profissão para elas, sem contar que conta para remissão de pena.

Portal Mulheres Mil - Qual a importância do Mulheres Mil para essas cidadãs?
Sandra Regina Santos - Creio que esse projeto tem uma grande importância para cada uma que participa, pois temos visto que elas falam que quando saírem daqui vão colocar o seu próprio negocio para poderem trabalhar e viver dignamente.

Portal Mulheres Mil - Que mudanças você perceber no comportamento e na autoestima das mulheres?
Sandra Regina Santos - Elas criaram uma responsabilidade, estão aprendendo a cumprir regras e tem esse projeto como uma porta que abriu para um futuro melhor. Quanto à autoestima, elas perceberam que não é porque estão privadas de sua liberdade que não são seres humanos. Erraram, mas estão pagando pelos erros e, ao mesmo tempo, aprendendo uma profissão.

Portal Mulheres Mil - Que preconceitos essas mulheres enfrentam da sociedade e das famílias?
Sandra Regina Santos - A maior parte delas já tem uma história familiar conturbada. Algumas não recebem visitas de familiares. Sabemos que é fundamental a família na vida de qualquer ser humano, não é porque erraram que devem ser abandonadas.

Se o preconceito da sociedade fosse menor, o índice de reincidência diminuiria, pois essas mulheres e até mesmos os homens muitas vezes cometeram qualquer infração pela primeira vez. Se sociedade tiver sempre esse pensamento e não derem oportunidades de trabalho, com certeza elas voltarão para o mundo do crime.

Stela Rosa – Jornalista do Mulheres Mil

Maria Aurineide  (Credito: Stela Rosa)

Maria Aurineide Alves, 45 anos, nasceu em Roraima. Índia da tribo Macuxi, ela está presa há cerca de dois anos, esperando sentença. Com cinco filhos e oito netos, ela achou que poderia melhorar de vida se envolvendo com tráfico.

Portal Mulheres Mil - Qual sua expectativa em relação ao projeto?

Maria Aurineide - É bom poder estudar, é uma oportunidade que a gente tem. Muitas das que estão aqui querem uma chance de trabalhar e estudar. Para quem quer mudar de vida é uma oportunidade muito boa. Às vezes, a gente cai no negócio (tráfico), como muitas que têm aqui, porque está difícil emprego. Aí a gente acha que vai ganhar dinheiro fácil. Fácil é cair aqui dentro. Há muitas coisas que podemos fazer para ganhar dinheiro: bolo, café, tapete, porque tudo vende.

Portal Mulheres Mil – Em que você trabalhava?

Maria Aurineide - Sempre trabalhei em casa de família, não gosto nem de falar que dá um nó na garganta (choro). Fiz concurso na prefeitura e não passei.

Portal Mulheres Mil – Por que você se envolveu com o tráfico?

Maria Aurineide - Eu tenho um filho viciado. Ele não vendia, mas usava. A gente conhece muita gente e aconteceu de me convidarem. Por isso, estou aqui. Ainda não fui sentenciada, mas já estou aqui há mais de dois anos (choro).

Portal Mulheres Mil - E com a família, tem contato?

Maria Aurineide - Eles não vêm me visitar. A minha mãe não quer me ver, meu pai também não. A única pessoa que tenho contato é com o meu outro filho que está preso por homicídio. Vou ao presídio visitá-lo todos os domingos. Tenho enfrentando tudo sozinha.

Stela Rosa - Jornalista do Mulheres Mil.

Cheila dos Santos (Crédito: Stela Rosa)

Cheila dos Santos, 28 anos, natural do Maranhão. Sua história se assemelha a de muitas companheiras de cela que estão participando do Mulheres Mil em Roraima. O sonho de ter uma vida melhor se transformou em pesadelo. Ela tentou embarcar para Barcelona, Espanha, com 80 cápsulas de cocaína no organismo, foi presa em flagrante e pegou 14 anos de prisão. Agora a meta é profissionalizar-se para garantir renda para a sua família e se formar em Direito.

Portal Mulheres Mil – Qual sua expectativa em relação ao Mulheres Mil?

Cheila Santos - Acredito que esse curso pode ser uma porta para a gente mostrar que pode mudar de vida, que queremos e precisamos trabalhar para sustentar nossos filhos. Essa situação é muito ruim, porque você perde a liberdade e fica malvista na sociedade. As pessoas não querem te dar emprego. É a maior discriminação. As colegas que estão cumprindo pena em sistema semi-aberto relatam que é difícil conseguir trabalho.

Portal Mulheres Mil – Você é natural do Maranhão. Por que veio para Boa Vista?

Cheila Santos - Fui criada pela minha tia desde os primeiros dias de nascida. Vim para Boa Vista com 14 anos para conhecer minha mãe. Sonhava em conhecer minha família, minha mãe e meus irmãos, mesmo que eles não quisessem me ver. Depois fui ficando, casei e tive duas filhas.

Portal Mulheres Mil – Por que você se envolveu com tráfico de drogas?

Cheila Santos - Fiz pelas minhas filhas, porque eu queria comprar uma casa. Por elas, eu seria capaz de tudo. Trabalhei de empregada doméstica e na prefeitura como inspetora da creche, lá no bairro União, mas ganhava pouco e não tinha tempo para cuidá-las. Como sou separada, a responsabilidade ficava toda comigo. Achei que poderia ganhar dinheiro rápido e fácil.

Portal Mulheres Mil – Você foi procurar um sonho e encontrou um pesadelo. Como se sentiu?

Cheila Santos - Quando eu cheguei aqui no presídio e vi aquele corredozão no fundo, pensei: “olha aonde eu vim parar, olha a situação em que estou me encontrando agora”. Passei doze dias trancada no confinamento. É horrível, com 24 horas ali você se arrepende de tudo o que fez. Saí no 13º dia e passei para o outro lado, junto ao convívio com as outras. Achei que ia entrar em depressão.

Portal Mulheres Mil - Qual o seu sonho de vida?

Cheila Santos - Não terminei o ensino médio e quero concluir os meus estudos para me formar em direito, na área criminal. Esse é o meu sonho desde criança. Sempre falava para a minha mãe que ainda iria me formar em advogada criminalista. A única coisa que eu quero é estar lá fora, quero trabalhar.Estamos aqui consertando o erro e eu não quero mais voltar para cá.

Stela Rosa - Jornalista do Mulheres Mil.

Alessandra Teles da Silva (Crédito: Virgínia Albuquerque)

Alessandra Teles da Silva tem 31 anos e está na penitenciária há cinco meses por crime de tráfico. Começou a usar drogas com 14 anos, quando se envolveu com pessoas que não só usavam, mas também comercializavam o produto.

Segundo ela, a realidade na cadeia não é nada fácil. Confinada, sem contato com os parentes e os filhos, ela relata que o tempo parece não passar. “Estamos aqui pagando por nossos erros e não temos como voltar atrás, mas digo a todos que estão lá fora que jamais queiram viver aqui. Não me sinto ‘presa’ porque conheci a Deus, tenho fé e paciência”, desabafou Alessandra, enfatizando que esta não é a realidade da grande maioria, pois muitas vivem revoltadas e insatisfeitas com a condição de interna.

Aos 12 anos, ela desligou-se da família e se envolveu com drogas na ilusão de abrir possibilidades de um futuro melhor. Hoje, não tem contato com os familiares e nem com os filhos. “Envolvi-me com o tráfico para não me prostituir. Tenho uma amiga há vinte anos que conheço desde muito pequena e ela me convidou para entrar em sociedade com ela. Passamos três anos vendendo drogas e hoje ela também está aqui. Não tenho contato com a minha família há quase 17 anos e eles não sabem que eu estou presa. Tenho três filhos, o mais velho mora em Manaus, o segundo vive na Venezuela com o pai e o mais novo com o meu compadre”, conta Alessandra.

Alessandra vai cursar a 5ª série da Educação de Jovens e Adultos e diz que o Mulheres Mil veio em boa hora. “O projeto preenche nosso tempo e serve para nos entretermos e para aprendermos um pouco mais. Sou cozinheira e pretendo montar meu próprio negócio quando sair daqui. O estudo representa a garantia desse progresso”, destacou.

Virgínia Albuquerque – Assessoria de imprensa Cefet - RR

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