Portal do Governo Brasileiro

Entrevistas - Mulheres de Fortaleza

Hilda Maria Maia

Separada há mais de um ano, Hilda Maria Maia (29) é moradora do bairro Pirambu, em Fortaleza – CE e está participando do Mulheres Mil. Tem uma filha e  mora com a ex-sogra. Sua expectativa é se qualificar profissionalmente e conseguir um emprego. Para Hilda, o estudo pode ser instrumento para conquista da independência.

MM - Como está sendo a experiência de voltar à sala de aula?

Hilda - Eu nem pensava em voltar a estudar, mas apareceu essa oportunidade e voltei. Está sendo maravilhoso conhecer pessoas novas e adquirir novos conhecimentos. Antes, só ficava em casa, assistindo à televisão e cuidando da casa. O curso é uma oportunidade de vivenciar novas experiências.

MM - Como está sendo esse início de curso?

Hilda - Apesar de ainda estar muito no começo, já estou bem ambientada e motivada. Ainda estou me readaptando à rotina de estudo e às pessoas novas que conheci estão me ajudando nesse processo.

Por enquanto, estamos somente nas aulas teóricas, que são cansativas, mas, quando vier a prática, espero aprender muito, sobretudo na área de culinária. 

MM - Quais as suas expectativas para o futuro?

Hilda - Espero conseguir terminar meu curso, qualificar-me e garantir uma vaga no mercado de trabalho. Não sou muito boa na cozinha, apesar de gostar muito. Por isso, quero me especializar, aprender a fazer comidas gostosas e, com isso, ter uma profissão digna. 

MM - Que mensagem você deixaria para as mulheres que pretendem participar do programa?

Hilda - Quero dizer para minhas amigas que procurem essa oportunidade, que é muito boa e interessante. Estou tendo a oportunidade de vivenciar tudo isso e posso constatar que realmente é algo bastante gratificante e atraente. O estudo é, sem dúvida, o meio para conseguirmos nossa independência.

Rafael Oliveira – Assessoria de imprensa do IFCE

Cláudio Ricardo

Reitor do Instituto Federal do Ceará (IFCE), Cláudio Ricardo Gomes de Lima, destaca que o Mulheres Mil é uma experiência valorosa, pois mostra que as habilidades e competências adquiridas, de maneira não formal, podem ser aproveitadas na formação profissional e tecnológica. “Isso contribui para a estruturação do IFCE, que tem nas suas concepções e diretrizes exatamente essa orientação de estar voltado para atender os problemas da população”, destaca.

MM - Qual a importância de ofertar a capacitação profissional para mulheres desfavorecidas?
Cláudio Ricardo
- É importante destacar que a posição da mulher avançou muito, no Brasil, em termos de inserção no mercado de trabalho. São diversas as conquistas da mulher brasileira, mas há muito a ser conquistado. A gente percebe que ainda existe discriminação, de ordem social sobretudo. Nas classes menos favorecidas, a mulher ainda tem muita dificuldade, dada às suas limitações de formação, da própria condição de ter que cuidar da casa, dos filhos, do marido. Sabemos que muitas não conseguem se inserir dignamente no mercado de trabalho, onde as oportunidades para essa classe são menos nobres.

Sendo assim, a importância de um projeto como esse é muito grande no sentido de tocar nessas mulheres das periferias das grandes cidades - que estão situadas em regiões de risco -, mulheres desfavorecidas do ponto de vista social, com uma autoestima muito baixa por várias razões, algumas delas já citadas. De modo que, trazer essas mulheres para dentro de uma instituição tecnológica, como é o IFCE, num programa em parceria com um país como o Canadá, que já avançou muito nesse lado social, é algo de grande valor. Percebemos que há por parte dessas mulheres uma receptividade muito significativa. Elas são seres que estão à busca de uma oportunidade como essa para se libertar de amarras tão pesadas, que incidem sobre elas nesse momento.

MM - Quais os aspectos, em relação à aprendizagem, que o senhor destacaria no projeto Mulheres Mil?
Cláudio Ricardo
- Acho que essa aprendizagem é uma via de mão dupla. Quando a gente ajuda essas mulheres, elas aprendem, elas melhoram a qualidade de vida, sua autoestima, a relação com a família, como também o Instituto aprende por perceber com mais detalhes a realidade social na qual estamos inseridos. Essa relação vai nos fortalecer na hora de fazermos nossa programação da extensão e até mesmo o planejamento de nossos cursos.

Então, para nós têm sido uma experiência muito valorosa, em termos de conhecermos a nossa realidade, a realidade das famílias de muitos dos nossos alunos, que são pessoas que vêm das classes menos favorecidas, muitas delas filhas de trabalhadores da classe baixa. Isso tem sido uma experiência muito rica para o programa de extensão do IFCE, que sempre teve foco social muito pronunciado.

Mulheres Mil- O senhor falou que esse programa tem beneficiado mulheres da periferia, especialmente as do bairro do Pirambu, um dos mais pobres da capital cearense. Quais dificuldades o IFCE enfrentou para implementar o programa?
Cláudio Ricardo -
Nós temos algumas dificuldades estruturais, embora, no Pirambu, tenhamos tido um facilitador, por que nós já dispomos de um projeto fisicamente instalado lá. Nós estamos aproveitando, inclusive, essa experiência. As alunas do Mulheres Mil são mães, irmãs, pessoas da família desses jovens que a gente já atendia lá. No entanto, no campus de Fortaleza, nós temos alguns problemas estruturais, como a falta de espaço físico e o programa exigia um espaço definido, a instalação de laboratórios, salas especiais para receber essas mulheres em situação mais confortável.

Nós tivemos e temos algumas dificuldades iniciais em estruturar isso, mas a boa vontade das pessoas que estão ligadas a esse projeto e a nossa determinação em levar a frente essa parceria foram capazes de superar os principais entraves. Eu acredito que a versão Mulheres Mil do IFCE, que são as mulheres de Fortaleza, hoje é muito bem avaliada no contexto do programa nacional, no contexto do programa como um todo.

Mulheres Mil - Que contribuição o Mulheres de Fortaleza traz para o processo de democratização do acesso de populações desfavorecidas à uma instituição como o IFCE?
Cláudio Ricardo
- É uma contribuição muito grande. Eu acredito que é um aprendizado muito forte. Hoje, uma instituição como a nossa que tem uma atuação ampla, desde a formação inicial e continuada, formação técnica no Ensino Médio até a pós-graduação stricto sensu. O Instituto precisa estar muito antenado, com o termômetro muito apurado sobre o que acontece em seu entorno, em termos de sociedade. E modernamente, hoje, a gente tem que aproveitar todas as habilidades e competências que o ser humano tem. Temos que aproveitar também a vivência, tudo isso compõe o currículo.

Esse programa está nos ensinando isso, que, ao longo da vida, muitas habilidades e competências são adquiridas, mas de maneira não formal e isso precisa de alguma forma ser aproveitado na formação profissional e tecnológica. O Canadá já avançou muito nessa área, é um país que tem uma compreensão, que é capaz de certificar, de saber das competências das pessoas que os procuram nas instituições de ensino de forma hoje muito mais ampla. E esse aprendizado é o grande legado que nós estamos adquirindo nesse processo. Isso contribui para a estruturação do IFCE, que tem nas suas concepções e diretrizes exatamente essa orientação de estar voltado para atender os problemas da população, para ter contato mais profundo com a realidade, onde cada unidade da instituição se encontra.

Mulheres Mil - A tendência é que o Mulheres Mil se torne uma política pública. O IFCE já está investindo em ações para que esse projeto seja permanente e até amplie o seu leque de abrangência?
Cláudio Ricardo
- Sem dúvida nenhuma. Na visão da gestão que nós estamos à frente, o desenvolvimento do país e do nosso estado só vai acontecer se nós tivermos a capacidade de resgatar a imensa dívida social que nós temos com o nosso povo e formos capazes, também, de reduzir as desigualdades regionais. Nós temos que estar antenados, inseridos nas políticas públicas de educação, nas políticas que contemplam a diversidade, que resgatam o enorme fator cultural herdado com a escravidão. E isso é o que faz do Brasil, hoje, um país com grande perspectiva de potência.

Rafael Oliveira – Assessoria de imprensa do IFCE (Divulgação IFCE)

Maria Selma (Crédito: André Goldman)

Maria Selma da Silva tem dois filhos, um de nove anos e outro de 13, esse último com paralisia cerebral. Concluiu o ensino fundamental e acredita que através do Mulheres Mil conseguirá qualificação para entrar no mercado de trabalho.

"Quando era casada, a violência que eu sofria por parte do meu marido era absolutamente velada. Ele praticamente me obrigava a passar os dias inteiros em casa cuidando das crianças. Nunca me bateu, mesmo assim, chegou uma hora que eu resolvi dar um basta em tudo isso, não agüentava mais, e cuidar um pouco mais de mim. Separei-me e resolvi olhar para mim mesma: decidi voltar a estudar. Atualmente freqüento as aulas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) oferecidas pelo CEFET-CE. Com o Mulheres Mil, pretendo me qualificar para conseguir um bom emprego e melhorar um pouco de vida".

Antônia Maria (Crédito: André Goldman)

Antônia Maria – Nasceu em Fortaleza. É casada e denunciou o companheiro na tentativa de acabar com as agressões. Viu no projeto uma oportunidade de melhorar de vida. O alcoolismo, segundo ela, faz parte do seu dia-a-dia.

"Sempre cuidei de casa e dos filhos. Já sofri bastante, pois meu marido é alcoólatra e já me espancou. Ele me bateu três vezes, na terceira, denunciei. Depois disso, nunca mais me agrediu, mas a bebida continua presente na vida dele. Nos finais de semana, fico praticamente sozinha. Apesar de todos esses problemas, gostamos demais um do outro e sei que ele é uma pessoa boa. Com o Mulheres Mil, sei que posso aprender muito, conseguir um trabalho legal e quem sabe, até mudar de vida".

 

Paulinete Lima (Crédito: André Goldman)

Pauliene Lima da Silva - Cedo teve que abandonar os estudos para ajudar nas despesas casa. Concluiu o ensino médio e por necessidade não conseguiu continuar e realizar o sonho de ser jornalista. Mãe de um filho de cinco anos, nunca denunciou o companheiro. Desempregada há dez anos, ela sonha em ganhar seu próprio dinheiro.

"Sempre gostei muito de estudar. Gosto bastante de ler e acredito que tenho facilidade para escrever também. Não continuei os estudos, porque muito cedo tive de trabalhar para ajudar meus pais com o sustento da família, que era numerosa. Depois que casei, passei a ser dependente do meu marido e a viver em função dele e do meu filho. Por conta de algumas brigas, muitas delas mais sérias, chegamos a nos separar algumas vezes. No entanto, sempre voltamos. Não tenho como me sustentar sozinha. Com o Mulheres Mil, vi a oportunidade de ter meu próprio dinheiro, já que posso participar de aulas. Acredito que elas vão me auxiliar na preparação para o mercado de trabalho. Na verdade, sinto que aqui me descubro a cada dia, pois, a cada dia, aprendo mais e mais".

© Ministério da Educação. Todos os direitos reservados | Desenvolvimento: DTI - MEC - Governo Federal