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Entrevistas - Transformação, Cidadania e Renda

Leila Lima

Há pouco mais de um ano, Leilane Lima, 24, foi demitida de um hotel albergue internacional, localizado no Centro de Manaus. No Mulheres Mil, ela encontrou a oportunidade de estudar para obter uma qualificação profissional, e a expectativa é de voltar ao mercado. Ela é uma das cinco alunas que está fazendo estágio no hotel Caesar, o mais novo empreendimento da cidade.

Mulheres Mil - O que mais chamou sua atenção no projeto?

Leiliane Lima - Cada professor ensinou algo importante. Coisas que nunca vou esquecer porque isso vai ser pra minha vida inteira. Gostei da aula de português com a professora Nancy, porque ela ensinou assuntos que nas escolas do governo não se aprende, e também das aulas de inglês. Uma coisa que entrou na minha mente e que não vai sair tão cedo foi o que todos os professores ensinaram: a realidade. Foi o que eu aprendi neste curso. Ás vezes, pensamos que sabemos tudo, mas, no fundo, sabemos nada. Por isso, a importância de sempre estudar e conhecer novas pessoas.

Mulheres Mil – Sua participação no projeto ajudou a enfrentar o desemprego

Leiliane Lima - Fiquei sabendo do projeto e me inscrevi para participar da seleção. Ainda bem que fui selecionada, porque isso me ajudou e tem me ajudado desde que fiquei sem emprego. Sem contar que a hotelaria é uma área que gosto bastante. E o projeto é uma forma de eu criar expectativas.

Mulheres Mil - Quais são suas expectativas?

Leiliane Lima - Acredito que um dia ainda vou chegar a terminar uma faculdade e quero seguir na área de hotelaria. Quando acabar a qualificação e me chamarem para ficar no hotel, eu fico sem problema.

Mulheres Mil -Caso o estágio termine e não exista vaga para contratar camareiras, o que você irá fazer?

Leiliane Lima - Acredito que quando terminar a prática e não tiver vaga naquele estabelecimento. Não irei desistir. Há outros hotéis que serão inaugurados e que precisarão de pessoas qualificadas para atuar. Acho também que é preciso sempre se atualizar nessa área para ficar atenta as novidades e exigências do mercado.

Vanessa Senna – Assessoria de imprensa do IFAM

Maria Stela

A docente Maria Stela de Vasconcelos Nunesdemello participa do Mulheres Mil, lecionando a disciplina sobre direitos da mulher. Há 33 anos, atua no Instituto Federal do Amazonas (Ifam) e já ministrou aulas nos cursos de nível técnico integrado ao médio, subsequencial e, atualmente, o superior. Para as alunas, Maria Stela elaborou material que pudesse atender aos diversos níveis de escolaridade das alunas.

Mulheres Mil - Como você desenvolve a disciplina sobre os direitos da mulher?

Maria Stela – Inicialmente, eu estava um pouco apreensiva porque, mesmo tendo feito o mapa de vida delas, observávamos que elas tinham níveis de escolaridade diferentes. Elaboramos um material para que todos pudessem entender. Fizemos um diagnóstico interno na sala, começando por perguntas sobre o que elas entendiam sobre o direito da mulher, se tinham noções. A partir daí, começamos a desenvolver e dar uma série de informações.

Não repassamos de forma sistematizada, mas colocamos os principais pontos sobre os direitos. Fiz um histórico da trajetória da mulher, abordando o papel na sociedade e como vêm evoluindo e assumindo o mercado de trabalho, até porque antigamente elas tinham educação somente para serem donas do lar, cuidar dos filhos.

Mulheres Mil - Qual foi a reação das alunas quando começam a conhecer sobre seus direitos?

Maria Stela - Elas demonstram bastante interesse, porque tem relação com o cotidiano. Começam a comparar o que está sendo abordado na sala de aula com a vida, e a perceber que existe uma forma de convivência entre duas pessoas que pode ser sem agressão, sem violência e sem brigas.

Outro fator que sempre tento transmitir é que nem sempre o homem está errado, assim como nem sempre a mulher está com razão. Tudo é uma questão de conversa. Elas passaram a perceber que podem modificar o ambiente de casa, a partir dos conhecimentos que recebem aqui no projeto.

Mulheres Mil – Que tipo de depoimentos as alunas fazem sobre o tema?

Maria Stela - Muitas vezes elas só reclamam do marido, porque não atentam para os motivos que levam os seus companheiros a terem dificuldades no relacionamento. Por isso que sempre abordamos muito essa questão pessoal, de relacionamento interpessoal, em casa com o marido e os filhos.

Mulheres Mil - Como você analisa a evolução histórica da mulher?

Maria Stela - Não acredito que a mulher está bem quando ela assume todos os cargos profissionalmente. Não vejo por este lado. O homem e a mulher são importantes na sociedade, com seus respectivos valores, claro. A mulher já manda de diversas formas, é ela quem articula toda a família e, muitas vezes, é mais presente com os filhos. Não é preciso que ela seja chefe de algo para dizer que é importante na sociedade. A mulher pode ser tão boa quanto o homem em qualquer cargo e situação. Um tem que ajudar o outro sem competir entre si.

Mulheres Mil - Você é professora há 33 anos, existe algum ensinamento que você repassa para todos os alunos, independente do grau de escolaridade?

Maria Stela - No Mulheres Mil, conto histórias de pessoas que eram oprimidas e que não tinham objetivos de vida, mas o fato de começarem a estudar já mostra uma nova perspectiva de vida. Mas independente da turma que estou dando aula, sempre digo para todos os meus alunos que não tem como melhorar de vida se não for por meio de estudo. Ninguém fica rico da noite para o dia. Você tem que ter estudo e trabalho. O trabalho dignifica o homem e as pessoas têm uma ideia de que o trabalho é algo sacrificante e que não pode ser prazeroso e trazer felicidade. Estão totalmente erradas.

Mulheres Mil - Como está a situação da mulher no mercado de trabalho?

Maria Stela - Sabemos que muitas vezes as mulheres ganham menos que os homens. Mas acredito que isso seja uma evolução natural e que vai chegar um momento em que todos vão estar no mesmo nível. Mas, para isso acontecer, as mulheres devem estar preparadas para buscar essa evolução assim com os homens conquistaram.

Vanessa Sena – Assessoria de imprensa do Ifam

João Dias, reitor do IFAM (Divulgação: IFAM)

À frente do Instituto Federal do Amazonas (Ifam) há pouco mais de um ano, o reitor João Dias fala sobre as expectativas do curso de camareira oferecido pelo  Mulheres Mil. Dias ressalta a importância da transformação do projeto em política pública e adianta as  metas para 2010: incentivar as alunas a fazerem curso técnico e estabelecer parcerias para contribuir com a empregabilidade.
A previsão, segundo Dias, é que o mercado hoteleiro tenha um aquecimento significativo em função da Copa de 2014, visto que Manaus será subsede.  Com duas turmas certificadas, o projeto está caminhando para a terceira, com previsão de abertura do edital em março.

Portal Mulheres Mil - Qual a importância da capacitação do Mulheres Mil para o processo de democratização do acesso ao ensino?
João Dias
- É um programa que traz melhoria na qualidade de vida de um grupo de mulheres de baixa renda e provoca uma melhoria na autoestima. Mas temos ambições maiores: queremos aumentar o número de alunas absorvidas pelo mercado.

Portal Mulheres Mil - Qual seria uma das soluções para aumentar o número de alunas no mercado hoteleiro?
João Dias
- Acredito que a partir do momento que oferecermos a oportunidade para que essas mulheres continuem com os estudos, não somente adquirindo a qualificação, mas também fazendo um curso técnico. Além de procurar aumentar as parcerias, principalmente com os hotéis.

Portal Mulheres Mil - Manaus será um das subsedes da Copa do Mundo de 2014. Quais ações estão sendo planejadas para o Mulheres Mil?
João Dias
- Há uma necessidade criteriosa em fortalecer o curso, porque estamos vivenciando uma avalanche de construção de hotéis para a copa de 2014. Isso vai necessitar de mão- de- obra. Estamos esperançosos com a abertura do número de empregos neste setor. Além do curso de camareira, estamos analisando, junto com a coordenação do projeto, a possibilidade de oferecer a qualificação em hospedagem e assim ampliar as chances no mercado de trabalho.

Qual sua opinião sobre a meta de transformar o Mulheres Mil numa política pública?
João Dias
- Acredito que vai melhorar bastante, porque as alunas vão adquirir uma formação mais aprimorada, vai ocorrer uma verticalização do conhecimento. Esta ação vai ser um ganho muito maior do que terminar somente a qualificação em camareira e parar de estudar. Ainda vamos conversar com a Setec (Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica) para criarmos o curso técnico em turismo. Desta forma, estaríamos contribuindo para a formação dessas mulheres. Elas começariam no Mulheres Mil e poderiam mais tarde ingressar no ensino técnico.

Vanessa Sena – Assessoria de imprensa do IFAM

Ana Célia (Divulgação IFAM)

Lecionando língua inglesa para as alunas do Transformação, Cidade e Renda desde a primeira turma, Ana Célia Said fala sobre a experiência vivida dentro da sala de aula.  Ela faz parte do equipe multidisciplinar do projeto em Manaus e tem contribuído para o fortalecimento da ação na instituição.

Mulheres Mil - Por que decidiu participar do projeto?
Ana Célia
- Desde o início, vi a oportunidade de fazer algo pelas mulheres, levar a esperança de dias melhores e abrir horizontes para a vida.

Mulheres Mil - Qual a importância da língua inglesa para essas mulheres?
Ana Célia
- A importância não está apenas no fato de ser a língua inglesa - algo diferente para a maioria delas - mas, sim, mostrar a essas mulheres a capacidade de aprendizado, de que são capazes de ir além.

Mulheres Mil - Quais dificuldades você encontrou para ministrar a disciplina?
Ana Célia
- A primeira foi a falta de autoconfiança. Tivemos que trabalhar este ponto antes de iniciar as aulas. A inibição de algumas não permitia o fluir da parte prática que todas tinham que executar. Com o passar dos dias, a amizade foi crescendo no grupo, o que facilitou o processo. As alunas mais adiantadas ajudavam as que tinham mais dificuldades.

Mulheres Mil - Quais foram os resultados?
Ana Célia
- Mais autoconfiança de um modo geral. Algumas já falaram que deram prosseguimento aos estudos do inglês porque compreenderam sua importância não só para o trabalho, mas para o convívio social.

Mulheres Mil - Qual a importância do Mulheres Mil na capacitação dessas mulheres de baixa renda?
Ana Célia
- O projeto oferece uma possibilidade real das mulheres contribuírem com a renda familiar e permite uma visão de mundo melhor, apesar das dificuldades.

Mulheres Mil - O que você destaca no projeto?
Ana Célia
- Para nós que trabalhamos no projeto, há um desenvolvimento de todos no âmbito profissional e pessoal. Como seres humanos, somos capazes de vencer desafios, ativar nossa criatividade e resolver problemas.

Vanessa Sena – Assessoria de imprensa do IFAM

Dayani Brito Dias, aluna de Manaus, avalia que, além da oportunidade de profissionalização, a sua autoestima melhorou. Segundo Dayani, sorrir dos erros e acertos cometidos durante as aulas, junto com as demais colegas, ajudou-a a confiar em si mesma. A expectativa é terminar a capacitação e conseguir uma colocação no mercado.

MM - Por que você decidiu participar do projeto?

Dayani Brito - Como é um projeto voltado para mulheres, achei que seria interessante, tanto no que diz respeito ao aprendizado como a prática. Eu sabia que era um curso para formação de camareira e foi isso que me fez participar, porque eu sairia daqui com uma formação e um diploma.

MM – Quais as disciplinas que você mais gostou e quais os planos para o futuro?

Dayani Brito - Eu gostei muito da parte prática, considero a mais importante do curso. Foi uma etapa muito boa, porque tivemos acompanhamento durante o estágio. As camareiras do hotel ajudaram, quando errávamos, elas corrigiam e ensinavam o correto. Vou correr atrás de um emprego, independente de ser na área de camareira ou não.

MM - Que mensagem você deixa para as próximas mulheres que forem participar do projeto?


Dayani Brito
- Espero que todas comecem e terminem porque esse projeto é muito bom, e não vale a pena ser deixado de lado. Temos que aproveitar oportunidades como essa.

Vanessa Sena – Assessoria de imprensa do IFAM

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