Portal do Governo Brasileiro

Artigos Científicos

No contexto do projeto Desenvolvimento Comunitário, Mulheres Mil da Paraíba, as alunas possuem experiências e anseios de ter uma vida melhor, o que requer um olhar diferenciado no processo ou situação de ensino-aprendizagem. Mulheres “sobreviventes” nesse mundo letrado por meio de diversas estratégias. Elas trazem, para o ambiente escolar, idéias diversificadas a respeito da escrita, embora sem dominar as “regras” desse código. Por meio da oralidade, participam das diferentes situações de interação social, aprendem sobre si mesmas, sobre a família e sua comunidade. Observam palavras escritas em diferentes contextos e, nessas experiências, com práticas de leitura e escrita, vão constituindo-se enquanto pessoas “letradas”.

Cinqüenta e quatro guerreiras, divididas em dois grupos, que precisam de reforço no que concerne fazer a distinção entre “grafias-letras” e “grafias-números” e no aprendizado de escrever/compreender textos, além de produzi-los em linguagem escrita, o que exige um trabalho pedagógico sistemático, centrado em um processo diagnóstico, seguido de planejamento e da elaboração de estratégias de intervenção, após análise dos resultados.

A Equipe Multidisciplinar do Projeto no IFPB, formada por profissionais  da educação voluntários busca pelo equilíbrio de (re) construir um conhecimento acerca dos processos de leitura e de escrita e (re) planejar situações de ensino-aprendizagem atenta para as seguintes orientações:

Situações de leitura
  • É possível ler quando ainda não se sabe ler convencionalmente;
  • Ler diferentes textos, em diferentes circunstâncias de comunicação;
  • Tratar as alunas como leitoras plenas;
  • Planejar atividades voltadas para as práticas sociais de leitura;
  • Oportunizar as alunas interagirem com uma grande variedade de textos.
Situações de escrita
  • As alunas devem ser convidadas a escrever mesmo sem saber escrever;
  • Só se aprende a escrever, escrevendo;
  • As alunas precisam refletir acerca do funcionalismo da escrita;
  • As hipóteses de escrita (pré-silábica, silábica, silábico-alfabética e alfabética) precisam ser respeitadas, desde que estratégias de intervenção sejam planejadas e vivenciadas em sala de aula;
  • As alunas devem ser convidadas a produzirem textos diversificados e funcionais;
  • As atividades de reescrita precisam ser colocadas em prática.
Diante disso, a apreensão do conhecimento se dá na relação sujeito – objeto – realidade, com a mediação do facilitador da aprendizagem. As alunas trazem para o ambiente de ensino-aprendizagem uma bagagem cultural e as discussões coletivas devem constituir a base das situações de ensino-aprendizagem. O professor deve deixar de ser o detentor de conhecimento, cuja metodologia de ensino usual é a de aula expositiva e se envolver, de fato, com o processo de aprendizagem – saber ser / saber fazer.

Para Magda Soares (2005), a alfabetização ocorre por meio de práticas sociais de leitura e de escrita, ou seja, através de atividades de letramento, e esta, por sua vez, só se realiza, efetivamente, por meio da aprendizagem das relações fonema/grafema. Explica, ainda, a lingüista (2002), que Letramento, é o “estado ou condição de quem não só sabe ler e escrever, mas exerce as práticas sociais de escrita que circulam na sociedade em que vive, conjugando-se com as práticas sociais de interação oral.”

Para que haja uma sintonia entre as necessidades lingüísticas das alunas e os objetivos pedagógicos, o docente deve considerar o conhecimento prévio das alunas, das suas necessidades sócioculturais, buscando reorganizar esse conhecimento, dando sentido às atividades da sala de aula.
Nesse sentido, o processo de alfabetização passa a ser conseqüência de uma reflexão  “que o homem começa a fazer sobre sua própria capacidade de refletir. Sobre sua posição no mundo. Sobre o mundo mesmo, Sobre o seu trabalho. Sobre seu poder de transformar o mundo.” (Freire, 1975, 117).

Dessa forma, processos de alfabetização e de letramento não podem ser dissociados do processo de construção da cidadania. Ou, de forma mais ampla, de formação de uma consciência histórica, postulada por Paulo Freire (1980, 26), para quem o processo de conscientização “implica que os homens assumam o papel de sujeitos que fazem e refazem o mundo” – idéia esta ratificada por Brian Street (1984), que vê o processo de alfabetização como um modo de adquirir valores e de formar mentalidades.
Em suma, “Alfabetizar Letrando” é um desafio permanente. Significa refletir sobre as práticas no mundo da escrita – ler, compreender e produzir textos – , interação e inclusão social.

Quem foi que disse que eu escrevo para as elites?
Quem foi que disse que eu escrevo para o bas-fond?
Eu escrevo para a Maria de Todo Dia.
Eu escrevo para o João Cara de Pão.
Para você, que está com este jornal na mão...
E de súbito descobre que a única novidade é a poesia.
O resto não passa de crônica policial-social-política.
E os jornais sempre proclamam que “a situação é crítica”!
Mas eu escrevo é para o João e a Maria
Que quase sempre estão em situação crítica!
E por isso as minhas palavras são quotidianas como o pão
nosso de cada dia
E a minha poesia é natural e simples como a água bebida
na concha da mão.

Mário Quintana


Todo conhecimento [...] deve conter
Um mínimo de contra-senso, como os
antigos padrões de tapete ou de frisos
ornamentais, onde sempre se pode
descobri, nalgum ponto, um desvio
insignificante de seu curso normal.
Em outras palavras: o decisivo não é
O prosseguimento de conhecimento em
Conhecimento, mas o salto que se dá
em cada um deles.

Walter Benjamim

Mônica Montenegro – Gestora do projeto Desenvolvimento Comunitário – Mulheres Mil da Paraíba
© Ministério da Educação. Todos os direitos reservados | Desenvolvimento: DTI - MEC - Governo Federal